Por nos deixar respirar, por nos deixar resistir!

Como respirar em tempos de Coronavírus? Como imaginar novos horizontes quando a presença do outro pode significar colocá-lo ou se colocar sob o risco de morte? Como criar novos laços sociais diante de propostas de aniquilação do diferente que impera no Brasil e no mundo? Como existir e sonhar futuros diante de uma terra devastada? Como afirmar futuros quando a incerteza parece ser a única certeza? 

O desamparo e a feminilidade que surgem como condição de uma política fraterna e horizontal, possibilitando invenções criativas, também nos expõem à queda no desalento. Enfrentamos cotidianamente, em nossos consultórios os sofrimentos oriundos da facilidade com que o sistema neoliberal descarta subjetividades que não se adequam ao processo competitivo, mas também enfrentamos a angústia pelo excesso performático exigido dos sujeitos por esse mesmo sistema.

No contexto da pandemia, o convívio forçado intrafamiliar e a recessão econômica têm consequências muitas vezes desastrosas, evidenciadas pelo aumento da violência contra os mais vulneráveis. Mudanças no próprio dispositivo psicanalítico se colocam de maneira enfática, de modo que psicanalistas e analisandos tiveram que se adaptar rapidamente ao atendimento virtual, o que tem trazido muitos desafios e reflexões, desde os impasses que muitos analisandos vivem por conta da privacidade de se fazer análise em casa até às possíveis incidências disso no campo da transferência.

Além disso, a pandemia iluminou com força a desigualdade social, as diferentes situações de vulnerabilidade, bem como colocou em primeiro plano a questão do racismo estrutural. Ao grito “Vidas negras importam” sucedeu-se o questionamento mais amplo sobre o valor de qualquer vida. O que assistimos ficou evidenciado, num plano global, a partir do assassinato de George Floyd, é que a urgência de defender a vida diante da violência do Estado se sobrepôs ao medo de morrer por coronavírus.

Diante de todas essas urgências, destaca-se fundamental nessa jornada comemorativa dos 20 anos do EBEP pensarmos a clínica indissociável da política, a clínica como espaço político. Em última instância: mostra-se fundamental fazer política, defender a vida diante da política fascista que goza com a morte, repensar na psicanálise a questão ecológica e o novo descentramento do sujeito em razão da crise sanitária, construir alternativas, problematizar impasses que impedem a coalizão de setores que resistem a esse movimento destrutivo e, simultaneamente, defender a manutenção das tensões, conflitos e diferenças inerentes ao mesmo tempo à democracia e à aposta do ato psicanalítico.